por Suzana Lisboa
Como construir o futuro do trabalho quando ainda não temos experiência prévia na criação de uma sociedade híbrida entre humanos e inteligência artificial? Essa foi uma das reflexões centrais da reunião do World Economic Forum 2026.
O trabalho e as organizações estão sendo redesenhados em tempo real. Inteligência artificial, novos modelos de carreira, pressão por produtividade e escassez de talentos mostram que as certezas do passado já não garantem vantagem competitiva.
Nesse cenário, a atuação do executivo de Recursos Humanos precisa evoluir na mesma velocidade. Em vez de se posicionar como quem detém respostas prontas, esses profissionais devem passar a concentrar seus esforços na formulação de perguntas relevantes, na gestão de tensões e no fortalecimento da cultura organizacional, substituindo modelos de controle por uma lógica de aprendizado contínuo e decisões mais bem qualificadas. Como sintetiza Satya Nadella, CEO da Microsoft, trata-se de uma transição do know-it-all para o learn-it-all como prática diária de liderança.
Nunca se exigiu tanto do profissional de Recursos Humanos, e nunca foi tão desafiador corresponder às expectativas. Pesquisas conduzidas pelo consultor Josh Bersin mostram que o CHRO vive um paradoxo: apesar de ocupar um assento no C-suite, ainda enfrenta dificuldades para converter iniciativas de Pessoas em resultados percebidos pelo negócio.
Ao mesmo tempo, o contexto atual exige que o RH:
Isso requer abandonar abordagens reducionistas e reconhecer que estamos na era do “E”, não mais do “OU”: eficiência e adaptabilidade; performance e aprendizado; tecnologia e humanidade.
Perguntas certas como vantagem competitiva
Em cenários de alta complexidade, liderar não significa prever o futuro, mas abraçar as incertezas e antecipar-se às transformações que ele impõe. Sob tais condições, um RH com atuação estratégica deve substituir respostas definitivas e a busca por linearidade por uma abordagem orientada pelo levantamento de questões, tais como:
De acordo com levantamento da Harvard Business Review, líderes que formulam perguntas mais inteligentes tomam melhores decisões em momentos de alta incerteza, pois conseguem revelar suposições ocultas, ampliar perspectivas e estimular o pensamento coletivo.
O que o CEO espera do RH?
Conversas com CEOs e founders indicam que as expectativas recaem menos sobre processos e mais sobre o alinhamento do setor com as demais áreas da organização:
Cultura: o diferencial decisivo na adoção da IA
À medida que a tecnologia se torna amplamente acessível, a cultura organizacional se afirma como diferencial competitivo relevante. Esse movimento impulsiona mudanças que vão além do aspecto tecnológico, envolvendo a redefinição de funções, processos e modelos de trabalho.
A inteligência artificial, por si só, não garante vantagem competitiva. O que de fato distingue as organizações é:
Dados globais reforçam esse ponto: empresas com culturas fortes apresentam até 21% mais lucratividade e 58% mais engajamento (Gallup). Além disso, 77% dos CEOs afirmam que a prontidão cultural e as skills da força de trabalho são determinantes para a prosperidade futura das empresas (KPMG).
Nesse cenário, o RH desempenha um papel duplo e decisivo:
A cultura organizacional define a velocidade, a profundidade e a qualidade da adoção da inteligência artificial. Sem ela, a tecnologia tende a ser subutilizada ou a gerar resistência silenciosa.
O futuro do trabalho não será construído por quem tenta preservar modelos de trabalho e práticas atuais (mesmo que tenham funcionado no passado), mas por aqueles que aprendem e se antecipam às transformações futuras.
O executivo de RH que fará diferença será aquele que:
No fim, a pergunta-chave que define a estratégia do executivo de Recursos Humanos é: sua liderança busca preservar o que oferece segurança e familiaridade ou impulsionar a construção do futuro que realmente deseja?