por Larissa Medeiros de Luca

Ao longo de 15 anos de atuação em grandes organizações multinacionais, com trânsito por setores distintos, como automotivo, farmacêutico, mineração e óleo e gás, foi possível observar o mundo corporativo se transformar de múltiplas formas. O mercado sobreviveu a crises globais, adaptou-se ao trabalho remoto e assiste à chegada da revolução da inteligência artificial. No entanto, em meio a tantos avanços, uma percepção torna-se cada vez mais urgente: a tecnologia conectou as pessoas em tempo integral, mas, paradoxalmente, a sensação de isolamento parece maior.

Durante uma brilhante palestra no evento RH Rio, o psicanalista e escritor Alexandre Coimbra Amaral nomeou com precisão esse fenômeno observado nos corredores das empresas (e nas interações mediadas por telas na vida pessoal): a solidão contemporânea. O alerta trouxe clareza à vivência diária nas corporações. Essa solidão não representa a ausência de pessoas ao redor. Ao contrário, as agendas estão lotadas, os profissionais saltam de uma reunião para outra e as caixas de entrada nunca esvaziam. A solidão contemporânea caracteriza-se pela escassez de reconhecimento, de escuta ativa  e de vínculo genuíno. Trata-se de estar cercado de pessoas, mas não se sentir visto, compreendido ou valorizado pelo que se é.

Ao transportar esse conceito para a realidade corporativa, o resultado é a criação do que Alexandre chamou de “ambientes desertificados”. Nesses espaços, pautados por uma cultura de urgência implacável, metas agressivas e uma competitividade que beira a hostilidade, surge a fadiga relacional. As interações são frequentes, é verdade, mas os encontros reais são escassos. Os contatos tornam-se utilitários, baseados apenas no que o outro pode nos entregar, ignorando a dimensão humana.

A psicologia junguiana oferece perspectivas mais profundas para compreender a  psique e as dinâmicas corporativas. Carl Jung ensina sobre a persona, a máscara social utilizada para adaptação ao mundo externo. O desafio dos ambientes desertificados reside na exigência de uma armadura pesada e uma persona rígida, que elimina o espaço para a autenticidade. Sem a possibilidade de manter a própria essência, o esgotamento emocional é inevitável. O antídoto para essa aridez não está em novas ferramentas de gestão de tempo, mas na empatia e na disposição para aceitar a vulnerabilidade.

A qualidade das conexões influencia diretamente a qualidade dos resultados, algo perceptível na prática operacional.

A segurança psicológica é a solução para a solidão corporativa. Quando as equipes percebem que não precisam sustentar uma fachada de invulnerabilidade, resultados expressivos surgem. A energia antes gasta na defesa contra colegas ou na ocultação de falhas passa a ser canalizada para a criatividade e a resolução de problemas complexos. A alta performance não nasce da pressão constante e do medo; ela floresce na colaboração profunda.

Equipes conectadas de forma inteligente e emocional apresentam maior resiliência. Elas suportam as crises com solidez, pois o vínculo atua como uma rede de apoio invisível, mas extremamente poderosa. A inovação aumenta, pois um ambiente seguro encoraja o risco calculado. A confiança deixa de ser uma soft skill secundária e passa a atuar como alavanca estratégica essencial para garantir a sustentabilidade e o crescimento do negócio.

Nós, profissionais de Recursos Humanos, temos o dever e a vocação de ser os arquitetos desses espaços. A habilidade de criar vínculos não é um dom; ela precisa ser ensinada, praticada e valorizada todos os dias dentro das organizações. É fundamental formar líderes que, além de atingirem metas, saibam promover o encontro real, a escuta respeitosa e a comunicação não violenta.

As pessoas têm o poder de transformar as empresas, e o RH é um parceiro fundamental nessa jornada. Porém, transformar organizações requer, antes de tudo, reconfigurar a forma como as relações acontecem internamente. Esse processo tem início a partir da decisão intencional de construir times onde o suporte mútuo substitui o isolamento profissional.

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