Por: Luciana Astolpho, Gerente Executiva de Gente e Gestão da Camil Alimentos S/A
Há mais de 30 anos, quando fui efetivada na área de Pagadoria — como se chamava, na época, o setor de folha de pagamento — o papel do RH estava muito mais ligado à gestão administrativa: contratos, políticas, benefícios e cálculos. E isso tinha (e ainda tem) um enorme valor. Afinal, dar solidez e segurança às relações de trabalho é uma base essencial para qualquer organização.
Mas o tempo passou e o RH evoluiu. Foram várias fases, aprendizados e transformações até chegarmos ao que hoje se chama de RH Humanizado. Um conceito ora muito celebrado, ora questionado. Afinal, o que significa, na prática, um RH ser humanizado?
Acredito que a resposta está diretamente ligada à responsabilidade. Ser um RH humanizado não é apenas ser o porta-voz das boas notícias, dos reconhecimentos e das celebrações. É também ter a coragem e a maturidade de conduzir conversas difíceis, muitas vezes desconfortáveis, mas sempre necessárias. É olhar para as pessoas como o maior e melhor recurso de uma organização, sem perder de vista que existe um negócio a ser gerido, com objetivos, metas e sustentabilidade a longo prazo.
Esse equilíbrio entre cuidar das pessoas e cuidar dos resultados é o que diferencia o RH estratégico. Hoje, mais do que nunca, o papel do RH é atuar como parceiro do negócio (Business Partner), impactando o alinhamento e o fortalecimento da cultura, da estratégia e da performance. Isso significa estar presente em decisões críticas, apoiar líderes em seus desafios e construir uma organização que respeite a individualidade, mas que também exija responsabilidade, entrega e conexão com os valores da empresa.
Outro ponto fundamental dessa transformação é a cultura organizacional. Há 30 anos, pouco se falava sobre diversidade, inclusão e respeito às diferentes formas de pensar e agir. Hoje, esse é um pilar essencial: organizações que não cultivam ambientes diversos e inclusivos ficam para trás. A valorização das diferenças é o que gera inovação, colaboração e senso de pertencimento.
No passado, era comum esperar que a empresa conduzisse todo o percurso, ditando os caminhos de desenvolvimento e crescimento. Hoje, incentivamos que o protagonismo seja das pessoas, para que cada uma possa refletir sobre os conhecimentos que precisa aprimorar, assim como sobre as competências necessárias para assumir um papel ativo na construção da sua jornada profissional. O RH, nesse contexto, atua como facilitador, oferecendo ferramentas, mas não substituindo a responsabilidade individual.
E não podemos deixar de destacar os desafios geracionais. Enquanto no passado as equipes eram mais homogêneas, hoje convivem no mesmo ambiente diferentes gerações — cada uma com expectativas, valores e formas distintas de se relacionar com o trabalho. Cabe ao RH ajudar a mediar essas diferenças, transformando possíveis conflitos em oportunidades de aprendizagem e complementaridade.
O RH Humanizado, portanto, é aquele que entende que humanizar não é romantizar, mas sim valorizar com responsabilidade. É criar um ambiente em que as pessoas possam crescer, se desenvolver e se sentir parte de algo maior, ao mesmo tempo em que se constrói um negócio sólido, sustentável e competitivo.
Essa evolução — da antiga Pagadoria ao RH Estratégico que hoje vivemos — mostra o quanto nossa área se transformou e continuará a se reinventar.
E, se me permite uma reflexão pessoal: minha própria trajetória traduz bem esse caminho. Meu estágio era como Técnica em Processamento de Dados, na Pagadoria, e foi ali que, inesperadamente, entendi minha realização em lidar com pessoas. Justamente por ter sido um acaso, partiu de mim aceitar seguir nessa jornada, que tanto me realiza e me orgulha.
Três décadas depois, continuo a me reinventar, porque acredito que trabalhar com pessoas é sempre uma escolha desafiadora, de impacto, de responsabilidade e de coragem. Um RH humanizado faz a diferença na vida das pessoas e no futuro das organizações, vive o seu propósito e deixa um legado.
Para mim, esse é o verdadeiro sentido de ser um RH humano e responsável.